Para além da geografia e comércio, destaca-se em Feira: o feirense, o feirante!

GeralForça da feira livre

Para além da geografia e comércio, destaca-se em Feira: o feirense, o feirante!

Quanto mais feirantes chegavam, mais o povoado crescia

Crédito: Jorge Magalhães/Secom/PMFS

Privilegiada, pela localização, princesa, por denominação, formosa, bendita, um paraíso, como declama a canção. Berço de Maria Quitéria, entregue a Senhora Santana, lar de tantos Josés, Marias, Antônios e claro, Anas, a segunda maior cidade da Bahia tem traços que não se encontram em qualquer lugar. Feira de Santana é mesmo singular e isso não é de agora, a Princesa do Sertão já nasceu coroada.

Aqui, entre o litoral e o sertão, perto do mar, mas não nele, perto da seca, mas não nela. Com seu solo em que quase tudo o que se planta, dá, fazendo com que aqui, fossem desenvolvidas a pecuária e a agricultura. É aqui, em Feira de Santana que tudo se encontra, que tudo acontece.

Foi nesse grande entroncamento que Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandoa decidiram trazer também religiosidade, no século XVIII, os donos da Fazenda Sant'Anna dos Olhos D'Água, construíram uma Capela dedicada a Nossa Senhora Sant'Anna. Ponto de referência para quem passava pela região.

O motivo do "Santana", já está claro, mas, e a "Feira"? Logo em sua gênesis, era rota de boiadeiros, aboiadores, viajantes, local de parada para descanso e de fazer comércio, assim, foi dada origem a uma feira, que acabou por se transformar em um centro de negócios. Quanto mais feirantes chegavam, mais o povoado crescia, num movimento natural, uma feira que tornou-se Feira. Pouco a pouco, passagens, vielas e ruas foram abertas, facilitando o trânsito; lojas começaram a aparecer em grande número, e até hoje, o desenvolvimento por todos os lados da cidade é nítido, como se aquela pequena parada de boiadeiros estivesse ainda germinando suas raízes, gerando seus filhos e espalhando suas sementes.

E para além da geografia e comércio, se destaca em Feira, o feirense! O escritor baiano Juarez Bahia, no livro de romance 'Setembro na Feira' descreve: "O que é a Feira de Santana senão tudo o que disse meu compadre Dos Anjos e mais esse espírito aberto a todas as vertentes, a todas as geografias, a todas as inovações? Os senhores me entendem? O gado vem de toda parte, pode vir do Oeste, do Leste, do Norte ou do Sul, para nós é gado bom de venda. Vem do sertão, do sanfranciscano, do diamantino, da serra, é gado bom de venda. A cachaça vem de um lugar, o tamanco de outro, o leite vem de mais longe, o peixe vem dos rios do recôncavo, a água vem da terra funda e às vezes chega salobra, nós aceitamos tudo como graça divina. Assim é a gente daqui; essa gente vem pelos caminhos do gado, de todas as origens, nós a recebemos e com ela convivemos, repartimos o privilégio de viver".

Mergulho na história com Rollie Poppino e Helder Alencar

O primeiro historiador de Feira de Santana, Rollie E. Poppino, era norte-americano e esteve na cidade na primeira metade da década de 1950, pesquisando sobre a história da Princesa do Sertão, para a elaboração de sua tese de doutorado na Universidade de Stanford, intitulada "Princess of the Sertão: A history of Feira de Santana". Produzida entre os anos de 1951 e 1953, a tese foi depois transformada no livro "Feira de Santana", que só viria a ser publicado em 1968, pela Coleção Baiana da Editora Itapuã, lá, Poppino elucida ainda que além de ter nascido através feira livre, nossa cidade ainda girava em torno das feiras, quanto a diversos aspectos. "A feira semanal era, e, em grande extensão ainda é, o acontecimento mais importante, econômico e social da semana, em Feira de Santana. Os feriados civis e dias de festas religiosas tem as comemorações adiadas, todas as vezes que acontece caírem em dia de feira. Atualmente a feira realiza-se às segundas-feiras e geralmente se pensa que sempre se reuniu nesses dias. Tal não é verdade, pois que as feiras se efetuaram em pelo menos dois outros dias da semana, durante mais de dois séculos, desde que se originaram junto à capela de Santana dos Olhos d'Água".

"Por causa de aspecto religioso, é razoável acreditar-se que um desses dias fosse a princípio domingo. Em época determinada do período colonial, esse dia foi mudado, pois que no primeiro quartel do século dezenove o dia tradicional da feira era terça-feira. Assim continuou até 1854. Por esse tempo, a fim de apressar a ida do gado para a Capital, a Câmara Municipal decidiu que dai por diante a feira se realizasse nas segundas-feiras. Isso vem acontecendo, normalmente, desde 25 de dezembro de 1854", escreveu o historiador".

Anos depois, a importância da feira em Feira foi endossada pelo jornalista e historiador Helder Alencar, em 1º de junho de 1975, no Jornal da Bahia. "A fama da feira ultrapassou as fronteiras do país e não raro chegam turistas estrangeiros especialmente para conhecê-la. Na última segunda-feira, Jorge Ketz, argentino de Buenos Aires, dizia à TRIBUNA que a feira 'é um espetáculo excitante e que viera de Salvador apenas para conhecê-la. Preocupado em saber se os feirantes se incomodavam em serem fotografados, seguia curioso por entre os montes de abacaxi e laranjas, procurando produtos artesanais: E muito belo, impressionante o colorido das frutas, as pessoas, a espontaneidade".

Economia se reinventa, mas a feira livre é da resistência 

Hoje, as feiras livres já não são a maior fonte de economia de Feira de Santana. "O setor de comércio e serviços, que é o nosso forte, é o maior do interior do Nordeste. Supera cidades como Jaboatão dos Guararapes, Camaçari, São Francisco do Conde, Campina Grande, Maracanaú, Caruaru. A indústria também cresceu, mesmo sem termos uma tradição industrial. Antes do ano 2000 não estávamos nem entre as 100 maiores economias do país.

De 20 anos pra cá, figuramos sempre entre as 100 maiores do Brasil. Nesse período a gestão municipal conseguiu dar credibilidade a cidade, a economia cresceu, o comércio evoluiu, e hoje temos indicadores que precisamos mostrar à população para que ela possa se orgulhar. Dizer que ela está contribuindo com esse crescimento. Serviço e comércio, no interior do nordeste, ninguém chega nem perto", disse o secretário municipal de Planejamento, Carlos Brito.

A economia de Feira de Santana se reinventou, mas, as feiras livres ainda resistem em cada canto da cidade, ainda há produção agropecuária, ainda há espaço e valorização à tradição e história da nossa cidade, quem fala sobre é o secretário municipal de agricultura, Pedro Américo. "Desde que nós recebemos a responsabilidade de cuidar das feiras livres e centrais de abastecimento, temos muito respeito com os produtores rurais, com os vendedores, comerciantes, feirantes", afirma..

"Ouvimos todos eles diariamente e buscamos realizar melhorias tanto nos locais em que temos as nossas feiras e quanto auxiliar o máximo na produção agropecuária. Somente neste ano, atuamos de forma contundente para instalação de Centro de Excelência em Qualificação Profissional Rural no Parque de Exposições João Martins da Silva, realizamos em parceria com o SENAR o Qualifica Rural, iniciamos diversas reformas em feiras e no Centro de Abastecimento, intensificadas as ações do Programa de Aragem, Gradagem de Terras e Silagem em unidades rurais, dentre outras ações", contou o secretário.

 

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Domingo, 03 Março 2024

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