Estudante de medicina de Feira de Santana apresenta pesquisa em congresso mundial nos EUA

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Estudante de medicina de Feira de Santana apresenta pesquisa em congresso mundial nos EUA

A pesquisa compilou dados de dez anos, entre 2011 a 2021

Crédito: Acervo pessoal

Uma malformação que pode ser identificada no nascimento da criança e que se diagnosticada tardiamente pode refletir em problemas de saúde pública. A deformidade congênita de quadril, também conhecida como displasia do desenvolvimento do quadril, é tema de pesquisa da estudante de medicina da Unifacs (Campus Salvador), Bianca Gabriella de Oliveira, 24, feirense coautora do artigo 'Análise do perfil epidemiológico das deformidades congênitas de quadril, 2011–2021', que foi apresentado na quarta edição do World Pediatrics Congress, em Orlando, Flórida, nos Estados Unidos. A pesquisa também foi publicada na Revista Paulista de Pediatria.

Em entrevista ao jornal FOLHA DO ESTADO, a formanda explicou sobre a origem da patologia. "A deformidade congênita de quadril é quando a cabeça do fêmur ela vem luxada, ou seja, o quadril não vem encaixado na articulação como deveria, isso pode ter ocorrido durante o parto, na formação do bebê, as causas não são bem definidas", comentou.

A pesquisa compilou dados de dez anos, entre 2011 a 2021, baseado em informações do DataSUS-TabNet. Contando com a colaboração de cerca de 100 pesquisadores, o estudo reuniu números da Bahia, para traçar um perfil epidemiológico e a prevalência da doença. Uma das conclusões foi que a Bahia registrou 1.481 casos, sendo o terceiro estado com mais registros, atrás de São Paulo (3.644) e Paraná (1.537). "Essa pesquisa acabou surpreendendo os dados, eu não esperava ter os dados alarmantes epidemiológicos que tem na pesquisa, que se destaca em cada evento que eu tenho ido, não é comum uma doença ter 60% de prevalência de casos, principalmente uma doença que repercute funcionalmente no paciente de forma tão ruim", disse Oliveira.

"47% do total de casos ocorreram em uma pequena cidade da Bahia, Itanhém. Isso indagou para a gente algumas variáveis. Será que a criança quando nasce não está sendo examinada direito? Será que a criança nasce e tem a ver com a forma como o parto está sendo realizado? Além disso, a cidade [Itanhém] mostra que tem diagnósticos tardios, acima de 9 anos de idade, enquanto em Salvador, com três meses de nascido. São dados que para o sistema de saúde impactam de forma negativa em várias formas. O sistema de saúde está sendo falho em algum ponto e temos outra incógnita: descobrir se existe alguma forma de parto errado", disse Bianca Gabriella, que foi responsável por apresentar os dados do estudo no congresso mundial.

A cidade do extremo sul baiano registrou no período pesquisado 912 casos, para uma população 19.231 habitantes, uma prevalência de 47,4 casos para cada 1.000 habitantes. A taxa é maior que Salvador, 445 casos em uma população de 2.900.319, uma prevalência de 0.15 casos para 1.000 habitantes. Em Feira de Santana, foram 18 casos, com uma população de 624.104, registrou uma taxa de 0.028 por 1.000 habitantes. Uma das preocupações do estudo, segundo Bianca Gabriella, é com o diagnóstico tardio. Em Itanhém, dos mais de 900 casos, 748 pessoas foram hospitalizadas com mais de 20 anos. Em Feira de Santana, dos 18 casos, foram 7 hospitalizações com menos de um ano de vida.

"Isso repercute de várias formas, como Previdência Social, por que a invalidez acontece, por conta da limitação da locomoção, investimento no tratamento e diagnóstico, por que você dá o diagnóstico de uma doença que o bebê quando nasce no exame físico pegando com a mão e com 9 anos você precisa de uma radiografia, ultrassonografia, as vezes uma ressonância magnética, que são exames caros para o Sistema, então tudo isso é um custo adicional, além do tratamento", comentou a estudante, que presidiu a Liga de Traumatologia e Ortopedia da Unifacs e atuou nas emergências do Hospital Geral Clériston Andrade (Feira de Santana) e Hospital Professor Eládio Lassére (Salvador).

Dados estaduais da prevalência da deformidade congênita de quadril 2011-2021
Deformidade congênita de quadril

TRATAMENTO

De acordo com Bianca Gabriella, que almeja seguir carreira na ortopedia, o tratamento se baseia no diagnóstico e quanto mais rápido, melhor a solução, sem a necessidade de procedimentos cirúrgicos, que não garante uma locomoção 100% correta. "Se nos primeiros meses de vida ela teve o diagnóstico, costumamos tratar só com órtese, que são aquelas 'botinhas', gessos, temos um tipo de gesso específico para poder tratar e usualmente não precisa de intervenção cirúrgica, mas quando a criança tem o diagnóstico tardio, o tratamento é cirúrgico, através de osteotomia, que faz a correção e reduz os prejuízos funcionais", disse.

"Além dos prejuízos econômicos, tem a parte psíquica de um indivíduo que não tem o desenvolvimento locomotor igual ao do colega. Imagina uma criança em uma escola que anda mancando e não consegue jogar bola e vai ao médico e tem o diagnóstico de uma alteração que deveria ser vista em um exame físico. É a importância de um conduta profissional cautelosa", completou.

SOLUÇÕES

Segundo a estudante de medicina, uma das soluções é o investimento para que este diagnóstico possa chegar o mais rápido possível ao paciente, assim como na atenção básica para acompanhamento da deformidade. A partir do momento que você tem dados epidemiológicos que te mostram que uma doença tem um diagnóstico tardio, o investimento público direto que precisa acontece é em correr atrás de dar este diagnóstico. Se você tem uma zona de alarme, um município da Bahia que tem uma quantidade muito grande de deformidade congênita de quadril, precisa ser investigada a parte desenvolvimento locomotor das crianças, no posto de saúde, na UBS que faz acompanhamento mensal", concluiu.

 

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